O Blitzkrieg (termo alemão para guerra-relâmpago) foi uma doutrina militar utilizada na segunda guerra mundial pelos exércitos aéreos de Hitler. Seus três elementos essenciais eram o efeito surpresa, a rapidez da manobra e a brutalidade dos estragos causados pelo ataque. Durou pouco mais de seis meses. Seis meses.
Em meados de janeiro do corrente ano eu vinha chegando na casa da minha linda e amada namorada, Camila, para mais uma vizita casual de sexta-feira. Mochila nas costas, camiseta desbotada no lombo e cabelo despenteado (fruto do atrazo costumeiro na hora de pegar a carona com meu pai) eram características que poderiam me descrever para a polícia se eu acabasse engolido pelo buraco no meu peito que se formou depois de receber a notícia que eu estava prestes a receber. E não demorou muito, ela me chamou no quarto e falou em tom sério: “Tenho que te contar uma coisa”.
Segura aí! Antes um prefácio: Dois meses antes, em novembro, a Cami havia participado de um concurso de beleza com todas aquelas mulheres estressadas e homossexuais escandalosos que se tem direito, e depois de não ganhar nada ela foi chamada por uma agenciadora para ir à capital do estado fazer uns “testes”. Tudo bem, nada alarmante.
Voltando: Então ela olhou nos meus olhos um tanto quanto pensativa, parecia refletir bem antes de proferir qualquer palavra. Disse-me que havia recebido uma proposta de contrato com uma agência de modelos em Porto Alegre e que se ela topasse a proposta, o plano era de enviá-la para trabalhar na China por três meses (não, eu não errei o número lá em cima, espera que tem mais) e depois ela voltaria para o Brasil, ficando aqui por alguns meses, e futuramente seria mandada para Taiwan.
Não pensei em nada. Isso mesmo, ao contrário do que se imagina, no momento em que você recebe uma notícia dessas seu cérebro não consegue produzir com rapidez a substância responsável pelo sentimento de trevas, amargura e dor. Independente do sentimento que eu sabia que isso viria me causar pela ausência de minha amada, apoiei com todo fervor e encorajei-a ao desafio para que, além de voltar financeiramente melhor, iria tornar-se culturalmente mais rica (uma das minhas paixões nessa vida).
A surpresa desnorteou minha mente naquela semana, quando ir ao trabalho tornava-se um refúgio para os pensamentos “pré-cair-a-ficha”. Então foi a vez da mudança de planos chegar com tamanha rapidez que me senti nocauteado. A agência decidiu que era mais “viável” que a Cami fosse direto da China para Taiwan, sem vir para o Brasil, totalizando assim, seis meses de ausência. Imagine alguém levando um soco no estômago e curvando-se para amenizar a dor, e enquanto mal consegue puxar o ar para os pulmões, leva um chute no rosto que estava abaixado devido a dor do primeiro golpe.
Seis meses. É o tempo de duração de uma guerra-relâmpago que ocorre dentro de você mesmo, porque depois que você vê o rosto da sua namorada emaranhado de lágrimas acenando no portão de embarque do aeroporto, e você sabe que só voltará a pegar na sua mão daqui meio ano, uma mini-guerra começa a fervilhar todos os pensamentos na sua cabeça com uma brutalidade impiedosa.
Hoje completa um mês que ela está lá, e acho que os jatos bombardeiros de coração não vão dar trégua tão cedo. Graças a todos os deuses da tecnologia, eu nasci na era digital e meus “mísseis anti-aéreos” consistem em vê-la todo dia em conversas de vídeo pelo Skype, bate-papo por Msn e troca-troca de recadinhos pelo orkut.
O meu mini Blitzkrieg perdurará por mais cinco meses, e nessa hora acabo descobrindo valores de amizade que me fortalecem e me ajudam a manter a cabeça erguida para defrontar esse momento ruim. Há excessões, amigos que parecem tentar atrapalhar, ou que simplesmente não percebem que não ajudam em nada me excluindo de suas atividades, mas a esmagadora maioria do meu círculo de amizades faz com que eu consiga me munir e enfrentar cada batalha interna com bravura e coragem. Se isso fosse realmente uma guerra, a saudade seria o grande ”chefão do mal” na história, descobri isso quando analizei a situação e cheguei à conclusão que a mesma irá morrer no final – e eu irei beijar a mocinha, é claro.

